“A Vitória Vem da Luta, a Luta Vem da Força, e a Força... Da união!!!”.

Quarta 23 Agosto 2017

Revista Exame: O risco Odebrecht. O susto da China.

Em dez anos, a Odebrecht, quarto maior grupo do país, quintuplicou de tamanho e passou a faturar 108 bilhões de reais. A meta era chegar a 200. Agora tem seu presidente preso e negócios sob suspeita. Pior: com uma enorme dívida para pagar

 Maria Luíza Filgueiras

 Cada novo capítulo da Operação Lava-Jato traz dois tipos de implicação. O primeiro é da natureza de investigações desse tipo — a Justiça fica mais perto de montar o quebra-cabeça do esquema de corrupção que, descaradamente, roubou bilhões de reais dos cofres da Petrobras. Mas logo em seguida vêm as implicações econômicas, inescapáveis quando vão parar na cadeia executivos das maiores empresas do país. A saúde financeira, afinal, é afetada. Quais bancos, e em quais condições, vão emprestar dinheiro para uma companhia que tem representantes na cadeia? Que órgão governamental vai fechar ou renovar contratos com empresas acusadas de corrupção? Essa onda de desconfiança foi afetando grupos de cuja solidez ninguém ousava duvidar até novembro do ano passado, quando os primeiros executivos de empreiteiras foram presos na Lava-Jato. A OAS foi a primeira das grandes empreiteiras nacionais a pedir recuperação judicial, em março. Em seguida caíram Galvão Engenharia e Schahin, além de diversas empresas menores, Mas, a cada novo capítulo da Lava-Jato, era quase irresistível especular — o que vai acontecer se e quando a onda bater na Odebrecht?

 A Odebrecht é, de longe, a maior das empresas investigadas pela operação Lava-Jato (exceção feita, claro, à própria Petrobras). É o quarto maior grupo privado brasileiro, atrás dos bancos Itaú e Bradesco e da J&F, que controla a gigante da carne JBS. Com um faturamento de 108 bilhões de reais, é a maior empregadora do Brasil. Poucas empresas aproveitaram tão bem o crescimento do Brasil e da América Latina na última década quanto a Odebrecht. O grupo construiu estádios de futebol e hidrelétricas no Brasil, porto em Cuba, estrada na Bolívia, metrô na Venezuela. No mesmo período, passou a ser dono de uma empresa de pagamento de pedágios. Começou a fabricar submarinos nucleares e a produzir até 3 bilhões de litros de etanol por safra. Somando tudo isso, quintuplicou de tamanho desde 2005. Em 2010, o grupo anunciou a meta de chegar a 200 bilhões de reais até 2020. Como se sabe, tudo mudou em 19 de junho, quando o presidente do grupo, Marcelo Odebrecht, foi preso junto com outros três diretores. Empresas como a OAS foram à lona porque suas receitas caíram com a Lava-Jato e suas dívidas se provaram impagáveis. A Odebrecht tem uma dívida total de 88 bilhões de reais. E dinheiro suficiente para fazer com que os bancos brasileiros prendam a respiração. Nos últimos cinco anos, a Odebrecht pagou 35 bilhões de reais apenas em juros de sua dívida. E, mesmo assim, ela cresceu.

 Para evitar que a desconfiança se espalhe entre seus credores, a Odebrecht começou, logo após a prisão de seu controlador, uma rodada de apresentações. A principal porta-voz tem sido a diretora financeira Marcela Drehmer. Em uma viagem aos Estados Unidos na primeira semana de julho, ela levou também Newton de Souza, ex-diretor jurídico que assumiu a presidência da holding no lugar de Marcelo Odebrecht. “Reforçamos aos bancos que as empresas da Odebrecht são pessoas jurídicas diferentes, com caixa e dívida independentes”, afirma Marcela. “Além disso, temos sócios estratégicos diferentes nas empresas, que garantem regras de governança e equilibram a necessidade de capital.” O objetivo é evitar que se espalhe a ideia de que o grupo pode cair como um dominó — como uma empresa é independente das outras, segundo o grupo, um eventual tropeço não derrubará as demais. Nessas reuniões, os executivos da Odebrecht alegam também que o grupo não terá problemas para honrar sua dívida. O grupo tem 25 bilhões de reais em caixa e restam 63 bilhões em dívida líquida cujo prazo médio de vencimento é de 12 anos.

 São números que sugerem que há fôlego para segurar o tranco. O grande problema é que, se números são importantes, a percepção do mercado também é. E, à medida que o tempo passa e o controlador da empresa segue preso, fica mais difícil ganhar o jogo da imagem. Como já se viu em escala muito menor, construtoras como Delta e OAS foram obrigadas a pedir recuperação judicial porque ficou impossível sobreviver em meio a uma crise de confiança. Os números mostravam que ambas eram relativamente saudáveis e poderiam evitar o pior. Mas o mercado não estava nem aí para os números.

 RISCO DE MULTA

 No caso da Odebrecht, a Lava-Jato dificulta as coisas de diversas maneiras, e não apenas, como se verá adiante, no dia a dia de seus negócios mais importantes. Ao rebaixarem a nota de risco da dívida do grupo, as agências de classificação de risco colocaram na conta até mesmo a probabilidade de que a empresa seja obrigada a pagar uma multa bilionária por formação de cartel (o Cade, Conselho Administrativo de Defesa Econômica, abriu inquérito para investigar as empreiteiras citadas na Lava-Jato). Por lei, a multa varia de 0,1% a 20% do faturamento — o que daria 7 bilhões de reais no caso de uma condenação extrema. Não é coisa para amanhã, já que o último processo desse tipo, que puniu as cimenteiras por cartel (e definiu multas de 15% do faturamento, em média), levou oito anos para acabar. Mesmo assim, após a prisão de seus executivos, os papéis de dívida da Odebrecht negociados no exterior caíram 25% — ou seja, para investir na Odebrecht, os investidores passaram a exigir um retorno duas vezes maior do que o pago pela enroladíssima Petrobras.

 A crise atual pega a Odebrecht num momento que já seria desafiador se tudo estivesse correndo bem. Nos últimos anos, o grupo adotou uma estratégia extremamente agressiva de diversificação. Hoje atua em dez mercados principalmente — construção, petroquímica, concessões, indústria naval, defesa, administração e construção de imóveis, óleo e gás, etanol e gestão de resíduos. A crise econômica, a paradeira na construção e o encarecimento do crédito seriam motivos para colocar um grupo tão complexo numa situação difícil — manter o ritmo de crescimento da década passada seria praticamente impossível, por exemplo. Alguns negócios, como as concessões e a gestão de resíduos, resistem bem, já que dependem de contratos longos. Mas, nessa hora, é natural que os problemas do passado comecem a pesar mais. Uma das empresas do conglomerado, a Odebrecht Agroindustrial, vive uma crise aguda há pelo menos dois anos. A companhia investiu 10 bilhões de reais para comprar e construir nove usinas de etanol em quatro estados brasileiros. Com a crise no setor, a Agroindustrial virou uma dor de cabeça. Hoje, após diversos aportes de dinheiro e reestruturações, deve 10 bilhões de reais. Quando tudo estava indo bem com o grupo, a crise da empresa de etanol ficava diluída, quase esquecida em meio à grandiosidade dos demais negócios. Não era motivo de grandes preocupações, por exemplo, que cinco dos dez negócios principais da Odebrecht dessem prejuízo (concessões, óleo e gás, estaleiro, etanol, defesa e tecnologia). Mas veio a Lava-Jato e mudou tudo, já que colocou em situação incômoda as duas maiores empresas do grupo — a construtora Norberto Odebrecht e a petroquímica Braskem.

 Ambas estão diretamente implicadas nas investigações. No caso da construtora, que fatura 34 bilhões de reais por ano e é a maior do país, os efeitos já vêm sendo sentidos há mais tempo. Assim como as demais empreiteiras investigadas na Lava-Jato, a Odebrecht está, desde dezembro, proibida de assinar novos contratos com a Petrobras. A empresa participa de seis dos dez maiores projetos de infraestrutura do país, e cinco deles são investigados pela Lava-Jato. Ao contrário do que acontecia com concorrentes como OAS e Galvão, a Odebrecht é hoje uma construtora com forte presença no exterior — 70% de sua receita vem de fora do Brasil. Mas uma eventual condenação, seja pelo Cade, seja pela Justiça, poderá atrapalhar mesmo lá fora. No pior cenário, o Cade pode impedir a empresa de fazer obras públicas 110 Brasil — sempre no caso de ela vir a ser condenada por crime de cartel no futuro. E, segundo credores ouvidos por EXAME, o risco é que outros países sigam o mesmo caminho e se declarem impedidos de contratar uma empresa que não pode fazer negócios com o governo do próprio país. Além disso, se uma empresa é proibida de fazer obras públicas no Brasil, o Cade também poderia impedir o governo brasileiro de financiá-la no exterior. Hoje, recursos vindos do BNDES respondem por 15% do total da dívida do grupo (sem contar a participação do BNDESPar ou dos fundos de investimentos do FGTS).

 Os países em que a Odebrecht mais cresceu foram aqueles com maior proximidade com os governos do PT, como a Venezuela, e nações africanas. O problema é que esses dínamos de crescimento de tempos atrás estão hoje em apuros. Angola e Venezuela, que representam quase metade do negócio internacional, pararam de crescer com a queda no preço do petróleo — o preço do barril, que chegou a ser cotado em quase 140 dólares em 2008, atualmente está em 58. “Muita gente não se dá conta de quantos negócios da Odebrecht estão atrelados indiretamente ao petróleo”, afirma um executivo que trabalhou na diretoria do grupo por quase dez anos. Em outros países da África e da América Latina, a Odebrecht começou a esbarrar na crescente concorrência de construtoras chinesas. Em um cenário de restrição maior de crédito, pode perder a briga — afinal, os chineses não têm dificuldade para obter financiamentos de alto valor e longo prazo. Os chineses e a Odebrecht já chegaram a ter vários embates diretos, como na licitação, no ano passado, para a construção do Gasoduto Sul Peruano (são mais de 1000 quilômetros, saindo da região de Cuszo até o porto de Uo, no litoral). Para levar a melhor, a Odebrecht se aliou à espanhola Enagás.

A construtora tem 34 bilhões de dólares de faturamento garantido em projetos já contratados, o suficiente para manter as receitas atuais por aproximadamente 30 meses. Em relatório aos clientes, o banco BTG Pactual alerta que, caso não assine novos contratos, a alavancagem pode aumentar, assim como as garantias pedidas por credores. A dívida líquida da construtora é de 3 bilhões de reais, mas, de acordo com a agência de risco Moody’s, há 3 bilhões de dólares de dívidas fora do balanço.

 OUTRA INVESTIGADA

 Grupos diversificados, como Camargo Corrêa, Andrade Gutierrez e Odebrecht. têm fôlego maior para resistir aos efeitos da Lava-Jato, já que dependem menos de suas construtoras. O problema, no caso da Odebrecht, é que a Braskem, maior aposta do grupo em sua diversificação na última década, também caiu na teia da investigação. A Braskem, maior petroquímica da América Latina e virtual monopolista do mercado brasileiro, é hoje a maior empresa do grupo Odebrecht. com faturamento equivalente a quase metade da receita total. A empresa já vinha enfrentando dificuldades há pelo menos três anos por causa da expansão do gás de xisto nos Estados Unidos que derrubou o preço do gás natural por lá e tirou a competitividade da Braskem no mercado mundial. Em 2014. a situação piorou quando a Braskem começou a bater de frente com sua segunda maior acionista, a Petrobras, dona de 36% do capital. Desde fevereiro de 2014 a Braskem tenta renovar com a estatal o contrato de fornecimento de nafta, um derivado do petróleo que é sua principal matéria-prima, de 6 bilhões de dólares por ano. A Petrobras quer aumentar 7% o preço da nafta, o que, segundo a Braskem, pode inviabilizar, de imediato, um de seus três poios petroquímicos. Isso levaria a empresa ao vermelho — a petroquímica fatura 53 bilhões de reais, mas, com margens apertadas, seu lucro líquido é de 726 milhões. Na prática, especialistas estimam que uma decisão da Petrobras num ambiente político convulsionado como o atual poderia levar a um tombo de um terço no faturamento da empresa que representa metade das receitas da Odebrecht. As ações da Braskem caíram 27% neste ano. Em cima de tudo isso, veio a Lava-Jato.

 A Braskem foi acusada nas delações premiadas do doleiro Alberto Youssef e do ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa de pagar propinas entre 2006 e 2012 para comprar nafta mais barato e agilizar as negociações com a Petrobras. Com o envolvimento da empresa, investidores americanos entraram com ações judiciais contra a Braskem e seus presidentes no período investigado, Bernardo Gradin e Carlos Fadigas, além de Marcela Drehmer, ex-diretora financeira da empresa, e Mario Augusto da Silva, diretor financeiro desde 2013. Pelo menos seis escritórios de advocacia estão envolvidos em ações coletivas, como o Scott+Scott, Goldberg Law e Bernstein Liebhard. Os investidores acusam a Braskem de ter mantido seus resultados artificialmente atrativos, o que acabou gerando queda das ações da empresa neste ano, e pedem indenização. A Braskem nega irregularidades. Gradin, que deixou o grupo Odebrecht em 2010, em litígio com a empresa, disse, por meio da assessoria, que ainda não foi informado oficialmente da ação.

 Em suas reuniões com credores, a Odebrecht tem dito que, mesmo com menos acesso a crédito no Brasil, a receita já prevista com os negócios no exterior daria conta de evitar uma crise aguda na construtora. Pelas contas da empresa, as obras públicas no Brasil respondem por menos de 15% da receita da construtora; e a Petrobras, por 3%. Para Marcela Drehmer, a conclusão de alguns projetos até 2016 garante a redução do endividamento. Com o início da operação da primeira fase do projeto petroquímico da Braskem no México e com a entrega do projeto de energia Chaglla, no Peru, a estimativa é que a receita no exterior suba dos atuais 49% para 55% da receita total do grupo em 2016 — ou 6 bilhões de reais a mais. Como esses projetos passam a adicionar caixa ao grupo, a alavancagem pode cair dos atuais 3.8 para 3,5 vezes a geração de caixa, segundo a diretora financeira.

 Todos esses problemas têm forçado a empresa a um choque de humildade. A meta de chegar a 200 bilhões de reais até 2020, por exemplo, já é considerada impossível na sede da companhia, na Marginal do Pinheiros, em São Paulo. Voltar a fazer o que dava certo no passado é a regra no grupo. “O Marcelo gosta de falar em tamanho, mas vamos nos preocupar é com a rentabilidade”, diz Marcela. Na área imobiliária, por exemplo, a empresa reduziu lançamentos em 2015 e não tem previsão para 2016. A Transport, subsidiária de concessões que fatura 2 bilhões de reais, também não tem novos projetos no radar. E a empresa ainda vai precisar de dinheiro quando a nova rodada de licitações do segundo pacote de logística do governo começar a sair. Para isso, deve colocar à venda uma participação acionária em sua subsidiária de concessões rodoviárias. Em pior situação estão as empresas de óleo, a Odebrecht Óleo e Gás (OOG), e de estaleiros, a Enseada. A primeira é dependente da Petrobras e foi proibida de disputar novos contratos — os executivos tentam uma reversão da decisão apoiados em um laudo da Controladoria-Geral da União que afirma que a OOG não está sob investigação. O estaleiro Enseada depende do contrato com a fabricante de plataformas de petróleo Sete Brasil, que não paga há mais de oito meses e, por isso, sua operação foi paralisada.

 De qualquer forma, um punhado de negócios da Odebrecht deve passar incólume pela Lava-Jato. A maior tranquilidade está na Odebrecht Ambiental, que faz tratamento de água e esgoto. A empresa ganhou concessões de 30 anos, que garantem receita perene e que não exigem grandes investimentos em manutenção, além de ter financiamento específico e garantido. Outras operações que têm financiamento barato e receita garantida são os contratos de segurança nacional, firmados com a Marinha, a Aeronáutica e o Exército, para fabricação de submarinos e radares terrestres e marinhos. No entanto, se a divisão de defesa e segurança tiver necessidade de aporte de capital, a garantidora de seus contratos é o grupo.

O que significaria, para o país, uma crise prolongada na Odebrecht? Apesar de ser um dos maiores grupos nacionais, a Odebrecht não vai parar o Brasil. A Petrobras investiu mais de 60 bilhões de reais no ano passado. cinco vezes mais do que a Odebrecht. Ou seja, crise por crise, a de nossa pobre gigante do petróleo ainda é a que mais atrapalha a economia brasileira. Mas um solavanco do grupo Odebrecht afetaria a vida de muita gente. A empresa emprega 118 000 funcionários no Brasil. Segundo um estudo da consultoria LCA, a paralisação de dois dos três poios petroquímicos de nafta do país resultaria na eliminação de 63 000 vagas. Na construção, a Odebrecht responde sozinha por quase 5% do PIB setorial — sendo que a construção civil conta com mais de 172 000 empresas. Obras cruciais para nossa infraestrutura estão nas mãos da Odebrecht (o que pode ser dito também de cada uma das grandes empreiteiras nacionais, todas envolvidas na Lava-Jato). Mas talvez a principal correia de transmissão de uma crise na Odebrecht para a economia brasileira seja financeira. A dívida bruta da empresa com os bancos soma 54 bilhões de reais (o restante está nas mãos de investidores de renda fixa). Já assustados com o colapso de outras empreiteiras e com a desaceleração da economia, os bancos podem continuar segurando o crédito — a concessão de empréstimo caiu 1,5% no ano.

 Na carceragem da Polícia Federal em Curitiba, Marcelo Odebrecht se exercita 2 horas pela manhã e tem alimentação regrada para controlar a hipoglicemia. Segundo amigos, ele tem controlado a ansiedade à base de calmantes. Para a consultoria Eurasia, o maior risco político do Brasil hoje é a delação de Marcelo Odebrecht. O juiz Sérgio Moro, responsável pela Lava-Jato, afirma que Odebrecht só será solto caso se afaste da administração do grupo. No cenário mais otimista, a Odebrecht vai ter dois anos para pagar suas dívidas, renegociar com os credores e voltar a crescer em 2017. No pior dos cenários, deve seguir a estratégia das concorrentes e se desfazer dos dedos para salvar as mãos. O que quase ninguém cogita é que, passada a onda da Lava-Jato, a Odebrecht volte a ser tão poderosa quanto foi até outro dia. ?

 Chega de construção?

 Para os bancos, os problemas na Andrade Gutierrez podem tornar a engenharia um mal negócio para o grupo

 Os resultados ruins da construtora Andrade Gutierrez começaram a levantar no mercado dúvidas sobre o interesse do grupo controlador, a AG Participações, em permanecer investindo no negócio. No ano passado, a receita encolheu 11%, para 7,5 bilhões de reais, e a construtora teve prejuízo de 351 milhões de reais. Um dos maiores problemas é o atraso no pagamento de obras públicas contratadas no Brasil e no exterior — só no fim do ano havia cerca de 1 bilhão de reais a receber. Com participações mais rentáveis em negócios como a concessionária de rodovias CCR e a empresa de telemarketing Contax, alguns analistas passaram a considerar o risco de a companhia não querer fazer aportes adicionais no negócio de construção. Só na AG Concessões, que contabiliza as participações na CCR, na empresa de tratamento de água Sanepar e na de energia elétrica Cemig, o lucro líquido foi de 581 milhões de reais em 2014. A construtora é investigada na Operação Lava-Jato e seu presidente, Otávio Azevedo, foi preso em junho deste ano. Proibida de disputar novos contratos da Petrobras, a Andrade Gutierrez diz que o setor público brasileiro representa apenas 14,7% de seu negócio e que já firmou contratos que garantem receita de 31 bilhões de reais.

 No vermelho

 Para a agência Fitch, o risco de imagem pode prejudicar a construtora na obtenção de novos contratos e financiamentos. Além disso, se for condenada pelo Cade por cartel, a multa pode chegar a 1,5 bilhão de reais no pior cenário. Esse cenário extremo aumentaria a dependência da empresa do dinheiro de seus investidores. “Os acionistas podem optar por não dar suporte à divisão de construção”, diz um relatório do banco BTG. No ano passado, os acionistas aportaram 330 milhões de reais na companhia. Os analistas do BTG projetavam alta da alavancagem de 2 para 4,1 vezes sua geração de caixa em 2014 e 2015. A empresa rechaça o número e diz que, quitadas toda a dívida e as garantias, ainda sobram 272 milhões no caixa. Os investidores de títulos de dívida da companhia consideram que o risco aumentou: os títulos de dívida perderam valor e os papéis, que pagavam 5%, agora rendem 15% ao ano. A Andrade Gutierrez diz, em nota, que sua divisão de engenharia e construção “tem tamanho e escala significativos e uma robusta carteira de contratos” e afirma que a empresa “possui perfil financeiro conservador, com forte posição de liquidez”.

O susto da China

A queda brusca da bolsa chinesa mostra como será difícil mudar o modelo econômico do país, como pretende o governo. Para a economia global, o impacto é pequeno. Por enquanto

Patrícia Valle

"Quando eu era pequeno, meus pais costumavam dizer: Termine seu jantar. Os chineses estão passando fome". Gostaria de dizer às minhas filhas: "Termine sua lição de casa. Os chineses estão atrás de seu emprego"." A frase foi escrita pelo Prêmio Nobel de Economia Milton Friedman em 2004, quando a China já crescia no ritmo que a transformaria na segunda maior economia do mundo. Nas últimas duas décadas, o país colocou em prática um modelo próprio de capitalismo — em que o Estado decide quanto, como e onde investir — que produziu resultados invejáveis. Cidades inteiras foram construídas do zero e algumas das maiores obras de infraestrutura do mundo foram erguidas ali. O crescimento médio do PIB foi de 10% ao ano, e a participação da China na economia global triplicou. Aos poucos, mesmo os céticos passaram a dar algum crédito ao capitalismo chinês. Até que o governo decidiu replicar o modelo no mercado de capitais, incentivando tanto o lançamento de ações de empresas chinesas quanto a compra de papéis por parte do cidadão comum — e, dessa vez, o resultado é uma confusão dos diabos.

A bolsa chinesa oscilou mais do que qualquer outro mercado de ações relevante no último ano. Depois de subir 150% em 12 meses até o começo de junho deste ano, o principal índice da bolsa de Xangai caiu 32% em apenas 17 dias. Com isso, as empresas abertas chegaram a perder 3,5 trilhões de dólares em valor de mercado — o equivalente à soma do valor de mercado de todas as companhias listadas nas bolsas de Brasil, México, índia e Rússia. No meio da baixa, pelo menos 1300 empresas, que representam 72% do mercado, simplesmente suspenderam a negociação de suas ações (cerca de 350 delas voltaram aos pregões dias mais tarde, mas a maioria continua fora do mercado, e não há prazo para a situação se normalizar, o que significa que os acionistas não podem mexer no dinheiro investido nesses papéis). "Uma alta tão expressiva da bolsa não condizia com a situação atual da economia, que está em desaceleração. A queda era esperada. Só que o governo incentivou demais a compra de ações, inclusive via campanhas, e agora precisa se explicar", diz Gabriela Santos, estrategista global do banco JP Morgan.

O governo chinês, bem a seu estilo, fez de tudo para controlar o preço das ações — claro, para que o preço subisse. O grande combustível para a valorização da bolsa foram os estímulos dados pelo Estado, que, em 2014, permitiu o aumento da participação de investidores estrangeiros no mercado e a tomada de empréstimos bancários para a compra de ações. O resultado imediato foi uma euforia sem precedentes. Apenas no primeiro semestre deste ano, 192 empresas abriram o capital, um recorde para o país. Num único mês, em maio, 15 milhões de chineses chegaram a abrir contas para comprar e vender ações. Quando as cotações começaram a cair, a reação de Pequim foi anunciar um pacote bizarro de medidas emergenciais. Proibiu novos lançamentos de ações e arrancou um acordo com 21 corretoras, que concordaram em criar um fundo de 19 bilhões de dólares para investir na bolsa. Essas corretoras também se comprometeram a não vender papéis até o principal índice da bolsa de Xangai voltar ao patamar de 4 500 pontos (hoje, está em cerca de 3 900 pontos, mas chegou a 5166 em 12 de junho, o maior nível histórico). Entre o anúncio das medidas, no começo de julho, e o fechamento desta edição, a bolsa voltou a subir, mas a maioria dos analistas continuava em dúvida sobre o potencial do mercado. "Uma bolha se formou com a conivência do governo e dos reguladores chineses. Ela está estourando e ainda é cedo para dizer se o pior já passou", afirma Stephen Roach, professor na escola de administração da Universidade Yale, especialista em Ásia.

MERCADO RESTRITO

Ainda que os números impressionem, o impacto da derrocada das ações na economia chinesa — e mesmo no mercado mundial — foi reduzido. Como a participação de estrangeiros na bolsa de Xangai é pequena, boa parte das perdas dos grandes fundos globais com a desvalorização recente ficou restrita às empresas que também são listadas nos mercados de Nova York e HongKong. Além disso, o tamanho da bolsa em relação à economia da China é pequeno: o valor de mercado das companhias abertas responde por pouco mais de um terço do PIB. Por último, embora tenham poucas alternativas de investimento à mão, os chineses aplicam pouco em ações. Menos de 10% da população tem ações — e, de acordo com um relatório do banco Credit Suisse, na média eles só deixam 9,4% do patrimônio na bolsa.

Apesar de ainda pequena, não é à toa que o governo chinês se preocupou tanto com a ziquizira na bolsa. Tornar o mercado de ações mais robusto é parte do plano de transformar a economia chinesa, hoje executado pelo presidente Xi Jinping. Depois de duas décadas de crescimento baseado em pesados investimentos e exportações, a China formou uma pequena coleção de obras inúteis, como cidades sem moradores e trens de altíssima velocidade sem passageiros, e convive com poluição alta e uma enorme desigualdade de renda. O objetivo central do novo plano é aumentar o consumo das famílias e fazer com que ele responda por uma parcela maior do PIB, para tornar a economia chinesa mais equilibrada e, portanto, menos suscetível a um tombo. Faz parte desse esforço a adoção de políticas de aumento salarial e a criação de uma rede mínima de seguridade social, com a concessão de aposentadorias para trabalhadores rurais, por exemplo. A estratégia trouxe alguns resultados. Em 2011, os segmentos de comércio e serviços ultrapassaram os investimentos em infraestrutura como os maiores responsáveis pelo crescimento chinês. Mas a fatia do consumo das famílias no PIB não aumentou como o esperado — em alguns setores, os gastos chegaram a diminuir. Uma pesquisa da agência de notícias Xinhua. controlada pelo governo, mostrou que as despesas da população com itens supérfluos, como joias, estão em baixa neste ano. Além disso, em junho, a venda de carros caiu 3%, e o desempenho no acumulado de 2015 é o pior em seis anos. A consultoria suíça Pictet, especializada em mercados asiáticos, revisou para baixo a expectativa de crescimento do consumo chinês neste ano — de 11% para algo em torno de 8%.

Para a maioria dos especialistas, as dificuldades eram esperadas, porque é mais difícil mudar hábitos de consumo do que mobilizar recursos para fazer grandes investimentos em infraestrutura. Os chineses, tradicionalmente, investem muito e gastam pouco — em média, a taxa de poupança doméstica está em 50% do PIB. Ainda que o governo tenha começado a criar uma rede de proteção social para convencer a população a consumir mais, não existem serviços básicos, como um sistema de saúde que atenda a maior parte da população, e benefícios como seguro-desemprego. A queda das ações só piorou esse cenário. "O governo esperava que o mercado de capitais fosse uma alternativa rentável de investimento que contribuísse para aumentar a renda da população, mas o efeito positivo durou pouco", diz o economista Adam Slater, da consultoria britânica Oxford Economics. Para a Oxford, é possível traçar um paralelo entre a situação da China hoje e a do Japão na década de 90. A meta do governo japonês também era aumentar a participação do consumo na economia, na época bastante dependente das exportações. Deu incentivos ao mercado de capitais, mas a consequência foi a formação de uma bolha acionária que, quando estourou, reduziu o poder de compra e, principalmente, a confiança da população por décadas. (A diferença é que, no Japão, os investimentos em bolsa respondiam por uma parcela maior do PIB e da poupança das famílias.) "No caso da China, ainda é cedo para saber se o que o governo está fazendo é realmente suficiente para aumentar o consumo no ritmo esperado", diz Slater.

O consenso entre os especialistas é que a taxa de expansão do PIB chinês continuará diminuindo. A previsão do Fundo Monetário Internacional é que a média fique em torno de 6% até 2020, mas há economistas que esperam um percentual inferior a 5% — e isso deve acontecer mesmo que a mudança de modelo idealizada pelo governo dê certo, porque uma economia baseada em consumo cresce menos do que uma impulsionada por gigantescos investimentos em infraestrutura.

IMPACTOS PARA O BRASIL

Para os demais países, o desafio é tentar se antecipar às mudanças para vender mais — ou vender produtos diferentes — para a China. O Banco Mundial prevê que a participação do país nas importações globais de produtos agrícolas, como grãos e carnes, aumentará de forma expressiva, de 14% para 41%, até 2030. É um cenário que beneficia o Brasil, que está entre os maiores exportadores de soja para a China e pode aumentar os embarques de carnes. "Mas só conseguiremos vender produtos de maior valor agregado se nossa produção ficar mais eficiente, o que parece pouco provável no curto prazo", diz Marcos Troyjo, diretor do BRICLab, um centro de estudos sobre mercados emergentes da Universidade Colúmbia, nos Estados Unidos. Apesar de os chineses estarem ganhando mais, o custo de um trabalhador na China ainda é 70% menor do que o custo aqui. "Também não avançamos em acordos internacionais, que tornariam o Brasil mais competitivo", diz Troyjo. A expectativa dos analistas é que os maiores beneficiados pela mudança do modelo chinês sejam os países ricos. De acordo com o Banco Mundial, as exportações de serviços dos Estados Unidos e do Japão para a China devem crescer a uma taxa de 10% ao ano até 2030. A evolução do mercado de capitais pode acelerar essas mudanças — ou levantar mais dúvidas sobre o futuro da economia chinesa.

Crédito: Revista Exame – disponível na web-EBC 19/07/2015