"A vitória vem da luta. A luta vem da força, e a força vem da união."

Sexta 31 Outubro 2014

Revista Veja: A razão de tanta fúria

Os jovens já marcharam pela paz, democracia e liberdade. Os de agora vão as ruas para baixar o preço das passagens. Mas, isso é tudo?

Para fabricar um incêndio bastam uma fagulha e um pouco de oxigênio. No caso da série de manifestações iniciadas em São Paulo e no Rio, a faísca foi o aumento da passagem de ônibus. Já o combustível era composto de bem mais do que um e/emento. Na semana passada, essa combinação produziu labaredas de alturas inéditas. A passeata de quinta-feira em São Paulo terminou com mais de 230 delidos, o maior número de presos em confronto com a polícia desde a ditadura militar. Mais de 100 pessoas ficaram feridas. incluindo dezenas que nada tinham a ver com a manifestação e que foram atingidas por lascas de bombas de gás lacrimogêneo ou balas de borracha disparadas pela Polícia Militar.

Há uma grande chance de que boa parte da rapaziada que, na semana passada, foi às ruas esteja apenas dando vazão às pressões hormonais pelo exercício passageiro do socialismo revolucionário. Afinal, como disse o inglês Winston Churchill. "se você não é um liberal aos 20 anos não tem coração, e se não se toma um conservador aos 40 você não tem cérebro". As minorias que participaram ativamente do quebra-quebra são os suspeitos de sempre: militantes de partidos de extrema esquerda (PSTU, PSOL, PCO e PCdoB), militantes radicais de partidos de centro-esquerda (PT e PMDB), punks e desocupados de outras denominações tribais urbanas, sempre dispostos a driblai- o tédio burguês aderindo a algum protesto violento.

Foi a quarta de uma série de manifestações organizadas por um grupo nanico criado por estudantes de São Paulo sob inspiração de um movimento nascido em Florianópolis. O Movimento Passe Livre (MPL) defende a estatização das empresas de transporte e a gratuidade das passagens. Em São Paulo, ele não tem sede, nem chega a reunir uma centena de integrantes. Vangloria-se também de não ter líderes. Tem. claro, mas prefere chamá-los de "porta-vozes". O perfil deles é bastante semelhante. Como o porta-voz Marcelo Hotimsky. de 19 anos. muitos são egressos do Colégio Santa Cruz, um dos mais tradicionais da elite paulistana, ou do Equipe, outra escola frequentada por filhos de profissionais liberais. Atualmente, a maior parte estuda na USP. nos cursos de física, ciências sociais, história e direito — caso de outra porta-voz, Nina Cappello. de 23 anos.

Mas essa minoria interessa pouco. Ela sempre será minoria, por definição — ou alguém acha viável um país em que a maioria dos cidadãos quebra tudo a sua volta, dia sim. dia não? O fenômeno realmente espantoso ocorrido na semana passada no Brasil foi o fato de às minorias terem se juntado milhares de rapazes e moças que tinham tudo para estar no cinema, no shopping ou na balada. e não engrossando as fileiras das minorias de vândalos profissionais. A tentação maior é rotulá-los de rebeldes sem causa, bem ao estilo do personagem da música dos anos 80 do grupo Ultraje a Rigor, aquele garoto que os pais "tratam muito bem" e que recebe deles :"apoio moral" e "dinheiro para "gastar com a mulherada". A reação do garoto? "Não vai dar. assim não vai dar / Como e" que eu vou crescer sem ter com quem me revoltar / Não vai dar, assim não vai dar / Pra eu amadurecer sem ter com quem me rebelar". Poderia ser esse o hino dos atuais insurgentes.

Os insufladores do movimento usam as redes sociais para organizar os protestos. O grupo também arregimenta simpatizantes nos grêmios estudantis dos colégios onde seus integrantes estudaram. Foram os militantes do MPL ligados a partidos que organizaram os dois primeiros protestos em São Paulo, que não chegaram a reunir 2 000 pessoas. Informações dos serviços de inteligência da polícia paulista relatam o que houve em seguida. Para engrossarem o movimento, alas radicais dos parados arregimentaram integrantes de grupos punk — alguns deles já conhecidos nos serviços de inteligência por ter se envolvido em episódios de agressão a minorias. Desse subgrupo, formado por radicais políticos e punks, partiu a maior pane das ações de depredação na Avenida Paulista durante a terceira manifestação, segundo informações da polícia. No protesto seguinte, o de quinta-feira, o grupo radical estava diluído entre as cerca de 5 000 pessoas presentes. "Esse movimento cresceu como hospedeiro de interesses políticos e se tornou um vetor de violência", disse um agente de inteligência da Secretaria de Segurança Pública de São Paulo. Nesta semana, estão marcados novos protestos em pelo menos nove cidades.

O movimento iniciado pelo MPL guarda algumas semelhanças com o Occupy Wall Street, a invasão e ocupação, por manifestantes, do centro financeiro de Nova York durante dois meses. A exemplo do movimento americano, ele não foi espontâneo, mas planejado por um grupo de ativistas. Também como o primeiro, reuniu sobretudo pessoas com situação financeira estável e que não enfrentam nenhum problema urgente. O estudo "Mudando o assunto: um relato de baixo para cima do Occupy Wall Street em Nova York", conduzido pela Universidade da Cidade de Nova York, mostrou que 36% dos ativistas tinham rendimento familiar superior a 100000 dólares por ano e 64% eram brancos. Por fim. da mesma forma que ocorreu nos Estados Unidos, a causa original dos protestos foi se metamorfoseando e se multiplicando ao longo das manifestações, graças em grande parte ao caldo de cultura em que estão inseridos, formado por uma democracia e uma economia em boa forma. Viver sob uma democracia significa que as balas dos fuzis da polícia serão de borracha. A economia beirando o pleno emprego faz dos manifestantes jovens caçados nas universidades por empresas em busca de mão de obra qualificada.

Em São Paulo, os cartazes dos manifestantes na quinta-feira já incluíam, além do tema das tarifas de ônibus, palavras de ordem contra a repressão policial e a corrupção política. Uma mensagem fartamente compartilhada nas redes sociais na sexta-feira dizia: "A luta não é por 20 centavos. É por direitos". A frase terminava assim mesmo, incompleta.

Não que a briga pela redução das tarifas de ônibus não faça sentido. Segundo o IBGE, o peso médio do transporte público no orçamento mensal dos paulistanos é de 5% - muita coisa se comparado ao que ocorre em Nova York, por exemplo, em que esse custo equivale a apenas 2%, ou Londres, que, com um dos transportes públicos mais caros do mundo, tem um impacto de 3% no rendimento médio dos trabalhadores. Como ficou claro nos últimos dias, contudo, boa pane dos manifestantes não é usuária de ônibus.

Por que direitos eles lutam e vociferam, então? A história recente mostra que, mesmo quando nem eles próprios sabem contra o que exatamente se rebelam, os jovens, quando vão às ruas protestar, precisam ser ouvidos. Nesses momentos deve-se aplicar o princípio básico da medicina chinesa para cujos praticantes "a queixa é a própria doença".

E qual seria a doença brasileira que se manifesta através dos jovens nas ruas? São várias moléstias. A principal é a ausência de partidos e programas que empolguem legitimamente os jovens. Isso lhes daria a saudável noção de que o mundo nunca é perfeito, mas vale a pena tentar consertar alguma coisa pela prática política e pelo voto. "Em todo o inundo parece haver um conflito entre a juventude e a política. Os jovens não se sentem representados pelos partidos e querem respostas rápidas às suas novas demandas", disse a VEJA Jordi Tejel Gorgas, historiador e sociólogo do Instituto Graduate. de Genebra, que acompanha as manifestações atuais na Turquia. Associada a essa sensação há uma armadilha inescapável. As autoridades percebem que, se não agirem com vigor, poderão perder o controle da situação. Isso gera o risco de que a própria repressão inflame ainda mais os movimentos de rua. "Em alguns países, isso pode ser agravado pela relação conflituosa já existente entre a polícia e a sociedade. Se a polícia é vista como uma instituição corrupta, que abusa da força, como no Egito, as pessoas vão revidar quando tiverem a oportunidade", diz Gorgas. Esse é o grande perigo em uma democracia. A degeneração de protestos legítimos e da repressão policial necessária em batalhas campais produziria um desastroso confronto em que todos sairiam perdendo.

Revista Veja 17/06/2013

 

Nota

A comissão eleitoral do Asmetro-SN repudia o uso de informações cadastrais do Asmetro-SN e do Inmetro para o marketing de campanha das chapas registradas. Repudia, também, o uso de grupos de e-mails ou redes sociais criados sem fins eleitorais.

Bruno de Carvalho do Couto - Presidente da Comissão eleitoral

29/10/2014

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